Consciência pessoal na prática mediúnica

A mediunidade é um instrumento essencial para o aprimoramento do próprio e para auxílio do sofrimento noutros, encarnados ou desencarnados. No que toca ao tema da mediunidade é fácil focar no ego, orgulho, ambição e pouco no trabalho interior, sendo este o maior propósito de se ser médium.

Vejamos: podemos definir mediunidade como a capacidade que temos de perceber a influência ou promover a comunicação dos Espíritos. N’O Livro dos Médiuns – cap. XIV, Allan Kardec assegura serem raros os que não têm essa percepção. Para Emmanuel, é aquela luz que seria derramada sobre toda carne. É atributo do Espírito, património da alma imortal, elemento renovador da posição moral da criatura terrena. Em algumas pessoas a mediunidade é ostensiva e precisa ser disciplinada; noutras jaz latente, podendo revelar-se episódica. Numa definição mais circunscrita, a mediunidade tem um aproveitamento mais limitado, aplicando-se às pessoas dotadas de uma capacidade intercessora, seja para a produção de efeitos físicos, seja para transmitir o pensamento dos Espíritos pela escrita ou pela palavra. Para o Codificador, a mediunidade de efeitos físicos são as materializações, curas, transfiguração, pneumatofonia, pneumatografia, e a mediunidade de efeitos intelectuais são a intuição, psicografia, psicofonia, vidência, audiência, dentre outras.

Ora, por vezes, há um grande foco da parte dos centros espíritas no chamado ‘desenvolvimento da mediunidade’. O estudioso espírita Jorge Hessen refere a este respeito: “considerando que mediunidade é a “luz derramada na carne”, então ela é natural, e portanto inerente a todos os homens. Nenhuma pessoa necessitará forçar o “desenvolvimento” da mediunidade, até porque, nesse território, toda a espontaneidade é imperiosa. É extremamente importante expor que a mediunidade não pode ser produto de afoiteza em qualquer sector da atividade doutrinária, pois que, em tal contexto, avigoramos a lembrança de que toda a espontaneidade é imprescindível, ponderando-se sempre que as empreitadas mediúnicas são conduzidas pelos instrutores do plano espiritual”.

Ainda sobre a questão do desenvolvimento mediúnico, Hermínio Corrêa de Miranda, no utilíssimo livro Diálogo com as Sombras, assevera que “a mediunidade, salvo casos especiais, não deve ser desenvolvida isoladamente e sem apoio dos livros essenciais ao entendimento dos seus componentes básicos”. Alerta ainda o autor: “Não nos esqueçamos de que a técnica do desenvolvimento mediúnico ainda exige atenção, acompanhamento e orientação pessoal de alguém que tenha condições morais e doutrinárias para fazê-lo”. Outras duas condições importantes para que este desenvolvimento tenha lugar é, acrescento eu, objectividade e desapego. Objectividade na avaliação da pessoa a quem se quer que desenvolva ou exercite a mediunidade, objectividade nos propósitos do grupo (p.ex., se estão mais focados no Espiritismo ou nas actividades do respectivo centro) e desapego de todos em relação ao exercício da própria mediunidade e do seu uso no contexto das actividades de uma casa espírita.

 Diz-nos ainda Jorge Hessen, “o principal desígnio da mediunidade, sobretudo a ostensiva, é a correção dos desacertos praticados, nesta vida e noutras encarnações. Considerando que o médium precisa praticar os valores cristãos para ser leal ao seu programa espiritual, vai ajustando as tendências de reassumir os erros contidos no pretérito recente ou remoto. O atendimento pela psicografia, psicofonia, seja para orientação de encarnados ou de desencarnados, cura física e espiritual, clarividência ou clariaudiência ou qualquer outra manifestação mediúnica, permite sempre ao médium a correção dos seus”.

Desenvolver a mediunidade é, pois, “apurar e disciplinar a sensibilidade espiritual, a fim de tê-la nas melhores condições possíveis de manifestações, e aprender a empregá-la dentro das melhores técnicas e visando às finalidades mais elevadas” e abrange empenho, estudo e conhecimento doutrinário, técnico e moral”, reforça Therezinha de Oliveira no livro Mediunidade e seu desenvolvimento. Ainda nesta obra Therezinha de Oliveira é clara sobre quando insistir ou não no desenvolvimento mediúnico: “Não se deve colocar em trabalho mediúnico quem apresente perturbações. Primeiro, é preciso ajudar a pessoa a se equilibrar psiquicamente, através de passes, vibrações e esclarecimentos doutrinários. Conforme o caso, se recomendará, também, a visita ao médico, porque a perturbação pode ter causas físicas caso em que o tratamento compete à medicina. Para o desenvolvimento da mediunidade, somente deve ser encaminhado quem esteja saudável, equilibrado, e doutrinariamente esclarecido e conscientizado”. Isto parece algo básico e de puro bom senso. Porém, nem sempre isto se verificará na Casa Espírita com os seus trabalhadores, seja por negligência, seja por desconhecimento sobre como fazer o melhor uso da mediunidade e em que condições. Diríamos que um défice nos trabalhadores da casa espírita é o défice de leituras pedagógicas sobre a mediunidade e prática concreta dos ensinamentos de Jesus, tal como explicitado no ESE, de Allan Kardec. Ou seja,  muitas vezes, nas casas espíritas, vemos passistas, médiuns e outros trabalhadores sempre, supostamente, nas mais perfeitas condições para trabalhar. Durante anos e anos, não há uma única vez em que não estejam em condições de dar passe, de receber comunicações, etc. E isto intriga-me porque das duas uma: ou esses trabalhadores não estão a ser honestos consigo mesmos e com quem servem no centro espírita ou todos eles têm vidas perfeitas, sem problemas, perturbações, fases menos positivas, cansaço, e vivem em redomas de vidro…

Ora, sendo sempre uma questão que cabe à consciência individual de cada um, nada mais é do que puro bom senso que um elemento de um grupo mediúnico, seja o dirigente, um doutrinador, o médium, passista ou outro, admitir e dizer: “hoje não irei participar nos trabalhos, não estou em condições. Ficarei apenas em prece em funções de suporte”? Isto que é tão normal não é sinal de que essa pessoa esteja obsidiada, tenha mau feitio, esteja perturbada, ‘virada do avesso’ ou qualquer outra coisa. Significa apenas que é um trabalhador consciencioso, honesto e responsável no exercício da sua tarefa. “Há casos em que é prudente, necessário mesmo a abstenção ou, pelo menos, o exercício moderado, tudo dependendo do estado físico e moral do médium. Aliás, em geral, o médium o sente e, desde que experimente fadiga, deve abster-se.” (O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XVIII). E está tudo bem com isto.

“O médium evangelizado consegue aperfeiçoar a modéstia no amor às empreitadas do cotidiano, na tolerância iluminada, na diligência educativa de si mesmo, conseguindo também erguer-se para a defesa da sua tarefa de amor, protegendo a verdade sem contemporizar com os princípios no momento oportuno” (Jorge Hessen).